Depoimentos

Olimpio Puia:

Tio Bepe (Giuseppe) era sabido (fazia negócios, comprava sítio).
Avô Angelo trabalhava na roça (plantava).
A mãe (Ermínia) sabia ler, gostava muito de ler romances e jornais (teve 11 filhos). Ouvia novelas pelos rádios.


Nilva Puia:       [1]  [2]  [3]

[1]  O que testemunhei ... (1.942)

De manhã quando eles se levantavam (filhos de Ermínia), corriam pegar ovos, punham para esquentar e tomavam.

Enquanto isso o feijão já cozinhava e a polenta já estava na mesa..

A vida era cheia (de fartura de alimentos de trabalho, de plantações de animais que criavam).

A mulher fazia o serviço da casa (doméstico) e criava aves, porcos, ajudava na roça, tinha os filhos que sempre eram numerosos.

Uma super mulher, porque socava o milho, o café, ainda moíam, faziam codiguim, linguiça, lombo recheado, chouriço, derretiam a banha dos porcos que matavam.

Também faziam sabão com as barrigadas que eram por elas lavadas no riacho.

Algumas até tiravam o leite das vacas, tratavam dos porcos, galinhas, patos, perus. Mexiam o café no terreiro, costuravam. As mais idosas faziam crochê, bordados, amarravam toalhas, cuidavam dos netos.

Cá entre nós, a Amélia perdia para elas.

Minha mãe era até apicultora, costureira, cozinheira, lavadeira, professora, crocheteira, faxineira, avicultora e agricultora, sem falar nos queijos e requeijões que fazia (aprendera com minha avó - coisas de italianas).

[2]  A casa onde Ermínia viveu na Itália (zona rural), durante 9 anos, era mais ou menos assim: feita com muitas pedras devido a grande umidade. No primeiro andar vivia a família. Havia muita neve e frio, então os animais, vacas, bezerros se guardavam no térreo.

[3]  Durante a viagem Ermínia passou mal. Seu pai Angelo tomou muito vinho (no porão do navio). Então Ermínia ía até a cozinha pedir leite e dizia: É para minha irmãzinha.  
Como o leite só era para bebês e crianças pequenas, então ela mentia, caso contrário teria morrido.


Maria Puia:

A mãe Ermínia contava coisas da viagem no navio, como a peste, como jogar cadáver no mar, como não podiam trazer tudo o que ela queria. 
Então ela ganhou uma xícara de porcelana de um italianinho e teve que escondê-la debaixo da saia para entrar no navio.
Do pai que bebia vinho, da cantoria, da demora da viagem.
Contou também que, ao olhar para o mar, viu um peixe enorme que tinha uma serra na cabeça (peixe serra). Que lá na Itália ela andou em Veneza (Gôndolas), do frio insuportável.
De muita neve que caia no inverno que é na época do Natal. De uma brincadeira chamada "Passar Felipe".


Vera Lúcia Cabrera:

ALBINO PIETROBON -  Um gênio. Criativo na maneira de ser.
Inventou uma vida rica, fora da época, humanitária e justa, como sonham os poetas.
Desde os “causos” e as fotos que não mentem. Invenções curiosas, como da sanfona com escala alterada , por ele inventada e encomendada à Itália, por carta, para que ninguém, exceto ele, conseguisse tocá-la.
Era movido de grande curiosidade e com um parafuso, uma madeira, uma pedra inventava consertos.  Consertava tudo (para os familiares e amigos) enceradeiras, liquidificadores, pianos, motores, porteiras e estradas..   
Caprichoso, às vezes perdia o sono (me contava) e matutava o resto da noite para encontrar a solução para um problema que a cada dia aparecia.  Com carinho guardava seus pertences em uma pequena oficina num quartinho, no fundo da casa.  Ah! Se fosse homem nascido nestes dias... se maravilharia com a parafernália elétrico/eletrônica, furadeiras, computadores.... Mas, moderno que era, seus próprios instrumentos fazia.  Os pregos que moldava, virava, nas mãos deste escultor, em brocas de furadeira manual, em peças de motores....
Sete filhas teve. E criou todas iguais.  Sua colheita de café da época (época de ouro) não virava fazenda nem tesouros (como os homens de então faziam), mas sim oito partes bem divididas (isto desde muito antes de ficar velho).  Criou todas guerreiras. Derrubavam árvores, furavam poços, construíam casas... As mais novas que não enfrentaram o dia-a-dia da roça, escolas estudaram.
Foi tão pai presente que, de presente, depois do enfarto aos 70 anos, uma a uma, cada dia da semana, durante 22 anos, em sua casa pousavam para fazer-lhe companhia, a este casal extraordinário.
Sim, casal, pois quando há um grande homem, uma grande mulher também há atrás.
Uma palavra da minha avó: parceira.
Um passo atrás (ou do lado) partilhou até o fim dos dias da companhia deste grande homem.
Um filósofo que não estudou. Mas, ah! Como estudava.   Com a vista cansada de dias e embaçada da catarata, quantas vezes eu vi ele a bíblia a ler,     com seus óculos e uma lupa.    E me ensinava.  Grande sabedoria de sua boca saia...... Tantos anos freqüentei igreja, mas como aprendi com as suas palavras....
Tinha curiosidade em aprender....Como indagava a nós, os netos....Minhas visitas sempre se estendiam....queria saber do mundo, das estradas...sempre sabia do que havia de atual, da televisão, dos jornais, das conversas...
Morreu com 92 anos, 5 meses e 27 dias, meu avô.
Com corpo cansado e alma jovem....
Morreu com dignidade (como pedia a Deus), pois de outro modo não poderia ser, quem sempre viveu com dignidade.
Agradeço a Deus, por ter vindo desta família e ter tido a honra de ter este grande homem como meu avô.
Albino Pietrobom. Albino Bom.......Bom Albino.........   

   

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